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Segurança

DR tipo A, tipo B e 6 mA: as proteções do carregador de carro elétrico explicadas

Disjuntor, DR e DPS na recarga: por que cada um existe, a diferença entre DR tipo A e tipo B, o detector de 6 mA da IEC 62955 e como montar o quadro das estações.

17 de outubro de 20269 min de leituraNível técnicoPara projetista, integrador, síndico
Neste artigo
O que você vai entender
  • Qual DR usar no carregador de carro elétrico?
  • Qual a diferença entre DR tipo A e DR tipo B?
  • O que é RDC-DD de 6 mA na estação de recarga?
  • Carregador de carro elétrico precisa de DPS?
  • Que disjuntor usar numa estação de 7,4 kW?

Toda estação de recarga precisa de três proteções, e cada uma cuida de um perigo diferente. O disjuntor protege o cabo contra sobrecarga e curto-circuito. O DR protege as pessoas contra choque. O DPS protege os equipamentos contra surtos de tensão. Na recarga, o DR ganha uma exigência extra: além da fuga em corrente alternada, ele precisa lidar com fuga em corrente contínua, que a eletrônica do carro pode gerar numa falha. É daí que vêm as siglas “tipo B” e “6 mA”.

Este artigo explica as três, o que a NBR 17019 pede de cada uma e como elas aparecem juntas no quadro que alimenta as estações.

Disjuntor: protege o cabo

O disjuntor desarma quando passa corrente demais pelo circuito, seja por sobrecarga, seja por curto-circuito. Ele é escolhido junto com o cabo: a função dele é impedir que o cabo esquente além do que aguenta. Por isso não existe “disjuntor de carregador” genérico; existe o disjuntor certo para aquele cabo, naquele trajeto.

Na recarga, cada ponto de conexão tem o seu circuito terminal, com proteção própria.[1] As normas de bombeiros reforçam: circuito dedicado e exclusivo por estação, com proteção contra sobrecorrentes, e é vedado ligar a estação direto nos bornes do disjuntor do padrão de entrada, mesmo quando a unidade consumidora existe só para a recarga.[2]

Exemplo: estação de 7,4 kW em 220 V
Corrente: I = 7.400 W ÷ 220 V ≈ 33,6 A
Muitas estações limitam em 32 A
Disjuntor comum nesse caso: 40 A, se cabo e trajeto comportarem
Valor de exemplo. O disjuntor é definido pelo projetista a partir da seção do cabo, do método de instalação, da temperatura e da distância (queda de tensão).

Um erro frequente é trocar o disjuntor por um maior quando ele começa a desarmar. Se o disjuntor desarma, ou o circuito está sobrecarregado, ou há um defeito; aumentar o disjuntor sem aumentar o cabo só transfere o problema para o cabo, que passa a esquentar sem que nada o proteja. Na recarga, quem limita a corrente da estação é a própria estação e, no prédio, o gerenciador de demanda, não o disjuntor.

A diferença da recarga para uma tomada comum é o tempo. A estação puxa perto da corrente máxima por horas. Cabo e disjuntor no limite, numa carga contínua, aquecem e envelhecem mais rápido. A conta completa está em dimensionamento do circuito da estação.

DR: protege a pessoa

O DR (dispositivo diferencial residual) compara a corrente que vai com a que volta pelos condutores do circuito (fases e, quando existe, neutro). Se a diferença passa do limite, é sinal de que corrente está escapando por outro caminho, talvez por alguém, e ele desliga em frações de segundo. O de 30 mA é o que protege contra choque em pessoas.

A NBR 17019 pede um DR individual em cada ponto de conexão em corrente alternada, com sensibilidade de no máximo 30 mA, e não admite o DR do tipo AC.[1] Um DR por ponto também tem uma vantagem prática: uma falha numa vaga desarma só aquela vaga, e não a garagem inteira.

O cuidado não é exagero. Segundo dados da Abracopel citados em estudo técnico, 59,6% das instalações comerciais avaliadas não tinham DR.[3]

Quando o DR desarma “sem motivo”

DR que desarma não é DR com defeito até prova em contrário: na maioria das vezes ele está vendo uma fuga real. Na recarga, as causas mais comuns são umidade em caixas e conectores, cabo danificado pelo uso, emendas mal isoladas, neutro e terra trocados ou ligados juntos e, nas instalações improvisadas, vários circuitos somando pequenas fugas num DR compartilhado.

A tentação é trocar por um DR menos sensível, de 100 mA ou 300 mA, “para parar de cair”. Isso tira a proteção das pessoas, que é a razão de existir do DR de 30 mA. O caminho certo é medir a isolação do circuito, inspecionar conectores e caixas e corrigir a causa. Se o DR desarma só com um carro específico, vale levar o carro à assistência: a fuga pode estar no veículo.

Os tipos de DR

Os DR são classificados pelo formato de corrente de fuga que conseguem detectar. Quanto mais formatos, mais completo (e mais caro) o dispositivo.

AC
Detecta fuga em:
Corrente alternada senoidal
Na recarga:
Não admitido[1]
A
Detecta fuga em:
Alternada e contínua pulsante
Na recarga:
Aceito quando a estação detecta a fuga contínua
F
Detecta fuga em:
Como o A, mais frequências mistas
Na recarga:
Aceito com detecção de fuga contínua
B
Detecta fuga em:
Todas as anteriores, mais contínua lisa
Na recarga:
Resolve sozinho a fuga contínua no quadro
Usos na recarga conforme resumos públicos da NBR 17019 (O Setor Elétrico, 2024 e 2026).

Por que a corrente contínua preocupa

O carro recebe corrente alternada da estação e o carregador de bordo a converte em contínua para a bateria. Uma falha nessa eletrônica pode fazer escapar corrente contínua lisa para a terra. O problema é o efeito disso no DR comum: o DR tipo A funciona com menos de 6 mA de corrente contínua lisa no circuito; acima desse valor, não dá para contar com a proteção dele, qualquer que seja a sensibilidade.[4] Em outras palavras, a fuga contínua pode “cegar” o DR que deveria proteger contra a fuga alternada.

Por isso, no modo 3 (estação fixa, o padrão do condomínio), a NBR 17019 pede proteção também contra fuga em corrente contínua. Ela pode estar incorporada na estação, e aí o quadro usa DR tipo A, ou ser feita na instalação com DR tipo B.[1] Outra forma aceita é o DR tipo A ou F combinado com um detector de corrente contínua conforme a IEC 62955.[3]

1. Detecção na estação
Estação:
Com detector de 6 mA CC
Quadro:
DR tipo A de 30 mA
2. DR tipo B
Estação:
Sem detecção CC
Quadro:
DR tipo B de 30 mA
3. Detector separado
Estação:
Sem detecção CC
Quadro:
DR tipo A ou F + detector IEC 62955
Os três caminhos aceitos para o modo 3. Qual deles se aplica depende do que a ficha técnica da estação garante.
Cuidado com DR em cascata
Se existir um DR tipo A a montante (por exemplo, no quadro geral) e um DR tipo B a jusante, no circuito da estação, o de cima também precisa ser tipo B: a corrente contínua que o tipo B deixa passar sem desarmar pode prejudicar o tipo A acima dele.[4] O projetista resolve isso na hora de montar a cadeia de proteções.

RDC-DD: o detector de 6 mA da IEC 62955

A IEC 62955, de 2018, define o RDC-DD (sigla em inglês para dispositivo de detecção de corrente contínua residual) para estações fixas de recarga em modo 3. Ele existe em duas versões: o RDC-MD, que só monitora e manda outro elemento abrir o circuito, e o RDC-PD, que faz a proteção completa.[5]

O limiar é de 6 mA em corrente contínua, justamente o valor acima do qual o DR tipo A deixa de ser confiável. O detector trabalha em conjunto com um DR tipo A e com um elemento de manobra (o contator da estação), que corta a recarga quando a fuga contínua passa do limite.[6]

Na prática: muitas estações já trazem esse detector embutido, e a ficha técnica costuma indicar “6 mA DC”, “RDC-DD” ou “detecção de fuga CC”. Quando traz, o quadro pode levar DR tipo A, mais barato e mais fácil de achar que o tipo B. Quando não traz, ou quando a ficha não deixa claro, o projeto deve prever DR tipo B. Veja como ler esses dados em como escolher a estação de recarga.

DPS: protege contra surtos

Surto é um pico de tensão de microssegundos, causado por raio na rede ou perto do prédio ou por manobras da distribuidora. O DPS (dispositivo de proteção contra surtos) desvia esse pico para a terra antes que ele chegue à eletrônica da estação e do carro.

A NBR 17019 exige proteção contra sobretensões transitórias nos pontos de conexão em locais com aglomeração de público, por ponto ou por grupo. Para recarga em modos 3 e 4, mais expostos, os autores de um estudo técnico recomendam DPS classe I ou classe I+II junto da estação; para os modos 1 e 2, em ambiente mais protegido, DPS classe II.[3] Normas de bombeiros também pedem DPS no quadro dos carregadores.[2]

Mesmo onde a norma não obriga, o DPS costuma valer a pena: ele é barato perto do preço de uma estação, e o mesmo estudo aponta, com dados da Abracopel, que 59,1% das instalações comerciais avaliadas não tinham DPS.[3] Para funcionar, ele precisa de um aterramento decente, assunto de aterramento na recarga.

Montando o quadro das estações

Exemplo · quadro de pavimento com 6 vagas (montagem ilustrativa)

Entrada do quadro: chave geral identificada, que também serve ao desligamento de emergência do pavimento, e DPS coordenado com o do quadro geral do prédio.

Para cada vaga: um disjuntor dimensionado para o cabo daquele circuito e um DR de 30 mA. Tipo A se a estação tiver detecção de 6 mA em corrente contínua; tipo B se não tiver.

Identificação: cada disjuntor com o número da vaga, e o quadro sinalizado como quadro de recarga, de fácil acesso e sem cadeado que impeça o desligamento.

Medição do gerenciador: prevista no projeto desde o início, para o controle de demanda saber o que o prédio está consumindo.

Desligamento de emergência é outra função. O DR e o disjuntor desarmam sozinhos numa falha; o seccionamento de emergência é um comando para pessoas e bombeiros desligarem as estações numa ocorrência. O que cada estado exige está em NBR 17019 e Corpo de Bombeiros.

O que conferir no projeto e na obra

Faça
Um disjuntor e um DR de 30 mA por ponto de recarga
Conferir na ficha técnica se a estação detecta 6 mA em corrente contínua
DR tipo B no quadro quando a estação não tiver essa detecção
DPS no quadro das estações, coordenado com o do quadro geral
Testar os DR na entrega da obra e depois pelo botão de teste, no intervalo do fabricante
Evite
DR tipo AC em circuito de recarga
Um DR só para várias estações
DR tipo B abaixo de um DR tipo A sem revisar a cadeia
Estação ligada direto nos bornes do disjuntor do padrão de entrada
Disjuntor “maior para não desarmar”, acima do que o cabo suporta

Na ProSmart EV, a obra é feita por integrador credenciado, com ART, e as estações homologadas na plataforma têm a ficha técnica conferida antes, o que ajuda a fechar o tipo de DR certo para o quadro. A lista está em compatibilidade.

Próximos passos

Fontes e referências

  1. [1]Alimentação de veículos elétricos na NBR 17019. O Setor Elétrico, 2026.Circuito terminal por ponto, DR individual de até 30 mA, tipo AC vetado, proteção contra corrente contínua no modo 3 (na estação, com DR tipo A, ou DR tipo B).
  2. [2]Instrução Técnica 30 (3ª edição) — Instalações e equipamentos elétricos, item 8 (SAVE). Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, 2026.Circuito dedicado com proteção contra sobrecorrente, DR e surtos; DPS no quadro; vedada a ligação nos bornes do disjuntor do padrão de entrada.
  3. [3]Os desafios da eletromobilidade em face da vulnerabilidade das instalações elétricas no Brasil. O Setor Elétrico (D. T. M. Lara e R. J. Teixeira), 2024.DPS na NBR 17019 e classes recomendadas; tipos de DR aceitos no modo 3; dados da Abracopel sobre instalações sem DR e sem DPS.
  4. [4]EV charging: is it an RDC or RCD?. Voltimum UK (conteúdo técnico Doepke), 2020.DR tipo A funciona com menos de 6 mA de corrente contínua lisa; acima disso não se pode contar com ele. DR tipo B a jusante exige tipo B a montante.
  5. [5]IEC 62955:2018 — Residual direct current detecting device (RDC-DD) to be used for mode 3 charging of electric vehicles. IEC, 2018.Escopo: dispositivos de detecção de corrente contínua residual (RDC-MD e RDC-PD) para estações fixas em modo 3.
  6. [6]The IEC 62955 standard at a glance. Bender.Limiar de 6 mA em corrente contínua; o RDC-DD trabalha junto com um DR tipo A e com um elemento de manobra.
Sobre este conteúdo
Texto informativo, escrito pela equipe da ProSmart EV a partir das fontes listadas. Não substitui o projeto elétrico com ART, a orientação da administradora nem a análise de um advogado de condomínio. Normas e leis mudam: confira sempre a versão em vigor. Achou algo errado ou desatualizado? Avise a gente.

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