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Energia

Dimensionamento do circuito da estação de recarga: corrente, cabo, disjuntor, DR e queda de tensão

A conta do circuito de uma estação de 7,4 kW passo a passo: corrente, circuito dedicado, seção do cabo, agrupamento, queda de tensão, disjuntor, DR e DPS, pela NBR 5410 e pela NBR 17019.

17 de outubro de 20268 min de leituraNível técnicoPara projetista, integrador, construtora
Neste artigo
O que você vai entender
  • Qual cabo usar para carregador de carro elétrico de 7,4 kW?
  • Qual disjuntor para uma estação de recarga de 32 A?
  • Qual DR usar no carregador: tipo A ou tipo B?
  • Como calcular a queda de tensão até a vaga?
  • O carregador precisa de circuito exclusivo?

O circuito de uma estação de recarga de 7,4 kW carrega cerca de 34 A durante horas seguidas, todos os dias. Por isso ele é exclusivo, calculado com folga e protegido por disjuntor e DR próprios. A seção do cabo sai de dois critérios que precisam passar juntos: a corrente que o cabo aguenta (já com as correções de temperatura e agrupamento) e a queda de tensão até a vaga. Em garagens grandes, o segundo costuma mandar.

Conteúdo para entender, não para substituir o projeto
As contas abaixo mostram o raciocínio com valores de exemplo. O projeto elétrico é feito por profissional habilitado, com ART, seguindo a NBR 5410, a NBR 17019 e a norma da distribuidora.

Comece pela corrente

Corrente de projeto
I = P ÷ V = 7.400 W ÷ 220 V ≈ 33,6 A
Para dimensionar, as contas do site usam cerca de 34 A por estação
O “7,4 kW” é a potência de 32 A em 230 V, a tensão europeia (32 × 230 = 7.360 W). Em 220 V, 32 A entregam cerca de 7,0 kW.

Na rede 127/220 V, a estação é ligada entre duas fases (220 V); na rede 220/380 V, entre fase e neutro (220 V). Nos dois casos a corrente é a mesma, e o circuito tem dois condutores carregados mais o condutor de proteção (PE). O artigo tensões e fases explica a diferença.

Outro ponto que muda tudo: a recarga é uma carga contínua. Diferente de um chuveiro, que puxa corrente alta por minutos, a estação fica horas no máximo. O cabo precisa aguentar isso sem aquecer além do limite da isolação.

Um circuito para cada ponto

A NBR 17019 pede que cada ponto de conexão seja alimentado por um circuito terminal próprio, calculado com fator de demanda 1, ou seja, pela corrente máxima do ponto.[1] Normas de distribuidoras repetem a exigência de circuito exclusivo, com disjuntor e DR.[2]

Na prática: nada de pendurar a estação no circuito da iluminação da garagem ou de uma tomada de uso geral. E nada de duas estações no mesmo disjuntor.

Escolhendo o cabo: capacidade de corrente

A NBR 5410 pede que a seção do condutor atenda vários critérios ao mesmo tempo: capacidade de corrente, queda de tensão, proteção contra sobrecarga, proteção contra curto-circuito, seccionamento automático e seção mínima.[3] O primeiro filtro é a tabela de capacidade de corrente, que depende do material da isolação, do método de instalação e do número de condutores carregados.

4 mm²
Capacidade típica:
32 A
Para 34 A contínuos:
Não atende
6 mm²
Capacidade típica:
41 A
Para 34 A contínuos:
Atende só sem agrupamento e com distância curta
10 mm²
Capacidade típica:
57 A
Para 34 A contínuos:
Folga para agrupamento e distâncias médias
16 mm²
Capacidade típica:
76 A
Para 34 A contínuos:
Distâncias longas ou condições severas
Valores de referência da NBR 5410 para isolação de PVC 70 °C, eletroduto embutido (método B1), dois condutores carregados, 30 °C. Outros métodos e isolações têm outros valores.

A tabela vale para uma condição de referência. Na garagem real, dois fatores costumam reduzir a capacidade:[3]

  • Temperatura: garagem fechada, perto de casa de máquinas ou com laje exposta ao sol fica acima dos 30 °C da tabela. Cabo em ambiente mais quente conduz menos.
  • Agrupamento: vários circuitos de estações correndo juntos na mesma eletrocalha ou no mesmo eletroduto se aquecem uns aos outros. O fator de agrupamento da norma reduz bastante a capacidade de cada um, e na recarga todos tendem a estar carregados ao mesmo tempo, de madrugada.

Cabos com isolação de 90 °C (EPR ou XLPE) conduzem mais corrente na mesma seção, e são uma escolha comum nas eletrocalhas de garagem. O projetista compara as opções.

Queda de tensão: o critério que manda nas garagens grandes

A corrente passando pelo cabo provoca uma pequena perda de tensão. A NBR 5410 limita essa queda; nos circuitos terminais, o limite usado é de 4%.[4] Em 220 V, 4% são 8,8 V. A conta usa a queda unitária do cabo, tirada de catálogo do fabricante:

Queda de tensão até uma vaga a 50 m do quadro
ΔV = queda unitária (V/A·km) × corrente (A) × distância (km)
6 mm²: 7,0 × 34 × 0,050 ≈ 11,9 V → 5,4% (reprova)
10 mm²: 4,2 × 34 × 0,050 ≈ 7,1 V → 3,2% (aprova)
Quedas unitárias de referência para dois condutores carregados e fator de potência 0,95, como em material didático baseado em catálogos. Use o catálogo do cabo escolhido.
6 mm²
Queda unitária:
7,0 V/A·km
Distância máxima a 34 A (4%):
≈ 37 m
10 mm²
Queda unitária:
4,2 V/A·km
Distância máxima a 34 A (4%):
≈ 61 m
16 mm²
Queda unitária:
2,7 V/A·km
Distância máxima a 34 A (4%):
≈ 95 m
Conta: 8,8 V ÷ (queda unitária × 34 A). Considera toda a queda no circuito terminal; se o alimentador até o quadro também consome parte do limite, as distâncias diminuem.

Por que isso importa para o carro? Tensão baixa na tomada significa mais corrente para a mesma potência, mais aquecimento e, em casos extremos, estação ou carro interrompendo a recarga por subtensão. E a queda de tensão é energia perdida em calor no cabo, paga por alguém todo mês.

O disjuntor: protege o cabo, não o carro

O disjuntor do circuito existe para proteger o cabo contra sobrecarga e curto-circuito. A regra básica de coordenação é: corrente de projeto ≤ corrente nominal do disjuntor ≤ capacidade corrigida do cabo.[3]

Coordenação cabo × disjuntor
Corrente de projeto ≤ Disjuntor ≤ Capacidade do cabo
34 A ≤ 40 A ≤ 41 A (6 mm², sem fatores de correção): passa
Com agrupamento, a capacidade do 6 mm² cai abaixo de 40 A: o cabo sobe para 10 mm²

Além da corrente nominal, o disjuntor precisa interromper a maior corrente de curto-circuito possível naquele ponto. A distribuidora é obrigada a informar, sem custo e em até 30 dias, a corrente de curto-circuito presumida no ponto de conexão,[5] e o projetista calcula a partir dela o valor em cada quadro.

DR: proteção das pessoas

Cada ponto de recarga em corrente alternada tem o seu próprio dispositivo DR, com sensibilidade de até 30 mA.[1] E aqui a recarga tem uma particularidade: uma falha no carro pode gerar corrente de fuga contínua, que “cega” os DRs comuns. Por isso:

  • DR tipo AC (o mais barato, comum em residências) não é aceito.[1]
  • DR tipo B detecta também fuga contínua e pode ser usado sozinho.[2]
  • DR tipo A só serve se houver detecção de corrente contínua de fuga, seja embutida na estação, seja por um dispositivo dedicado (RDC-DD, conforme a IEC 62955).[1] [2]

Antes de comprar o DR, confira na ficha técnica da estação se ela já tem a detecção de 6 mA em corrente contínua. Os detalhes estão em proteções: DR, DPS e disjuntores.

DPS e aterramento

O carregador de bordo do carro precisa suportar surtos vindos da rede, e o projeto prevê dispositivos de proteção contra surtos (DPS) especificados conforme a NBR 5410 e a NBR 5419.[2] O condutor de proteção (PE) acompanha cada circuito até a estação, e o aterramento precisa estar em ordem: sem terra adequado, a proteção contra choque não funciona como projetada. Veja aterramento na recarga.

Do quadro para trás: o alimentador

O cabo que leva energia do quadro geral até o quadro dos carregadores segue a mesma lógica, com uma diferença grande: sem gerenciador, ele é calculado pela soma das estações (fator de demanda 1); com gerenciador, pela demanda que o gerenciador garante não ultrapassar.[2] Vinte estações em fator de demanda 1, mesmo revezando as fases, puxam cerca de 420 A na fase mais carregada. Com o controle limitando o grupo a, por exemplo, 100 A por fase, o alimentador, o quadro e as proteções ficam muito menores. É por isso que o gerenciador de demanda entra no projeto desde o começo.

Exemplo · vaga a 45 m do quadro, eletrocalha com outros 8 circuitos (valores ilustrativos)

Corrente de projeto: 34 A. Pela capacidade sem correções, 6 mm² passaria; com o agrupamento na eletrocalha, a capacidade corrigida cai abaixo dos 40 A do disjuntor. Pela queda de tensão, 6 mm² daria cerca de 4,9% a 45 m.

Solução do exemplo: cabo de 10 mm² (queda de cerca de 2,9%), disjuntor de 40 A, DR de 30 mA tipo B (ou tipo A com detecção de 6 mA CC embutida na estação), condutor de proteção junto e DPS no quadro. O projeto real confirma cada valor com o catálogo do cabo e a medição do local.

Faça
Um circuito exclusivo, com disjuntor e DR próprios, por estação
Calcular a queda de tensão até a vaga mais distante
Aplicar fatores de temperatura e de agrupamento
Conferir na ficha da estação se ela detecta fuga em corrente contínua
Levar o condutor de proteção (PE) até cada estação
Deixar o alimentador dimensionado junto com o gerenciador
Evite
Aproveitar o circuito de tomadas ou de iluminação da garagem
DR tipo AC no circuito da estação
Escolher o cabo só pela tabela, sem queda de tensão
Disjuntor maior que o cabo aguenta “para não desarmar”
Tomada comum de 10 ou 20 A como ponto de recarga permanente

Na ProSmart EV

A obra elétrica é um serviço à parte, feito por um integrador credenciado com ART; a ProSmart EV apoia o integrador no projeto da recarga, inclusive na medição e no ProDemand, que define o tamanho do alimentador e do quadro dos carregadores.

Resumo

  • Estação de 7,4 kW em 220 V: cerca de 34 A contínuos, em circuito exclusivo.
  • A seção do cabo precisa passar na capacidade corrigida e na queda de tensão de até 4%.
  • Disjuntor entre a corrente de projeto e a capacidade do cabo; DR de 30 mA, nunca tipo AC.
  • O alimentador do quadro dos carregadores depende do gerenciador de demanda, definido no projeto.

Fontes e referências

  1. [1]Alimentação de veículos elétricos na NBR 17019. O Setor Elétrico, 2026.Circuito terminal por ponto, fator de demanda 1, DR individual de até 30 mA, tipo A só com proteção CC embutida, tipo AC não admitido.
  2. [2]I-321.0043 — Estações de recarga de veículos elétricos (instrução normativa de distribuidora). Celesc Distribuição, 2025.Circuito exclusivo com disjuntor e DR; alternativas de proteção CC (tipo B, ou tipo A/F com dispositivo IEC 62955); DPS; demanda gerenciada.
  3. [3]Projeto residencial: dimensionamento de circuitos de baixa tensão (material didático). UDESC.Critérios simultâneos da NBR 5410 para a seção do condutor e uso da tabela de capacidade de corrente com fatores de correção.
  4. [4]Dimensionamento de condutores (material didático). IFSC, 2024.Limite de 4% de queda de tensão nos circuitos terminais e tabela de queda em V/A·km para dois condutores carregados.
  5. [5]Resolução Normativa ANEEL nº 1.000, de 7 de dezembro de 2021. ANEEL / Diário Oficial da União, 2021.Art. 22: a distribuidora informa gratuitamente, em até 30 dias, a corrente de curto-circuito presumida no ponto de conexão.
Sobre este conteúdo
Texto informativo, escrito pela equipe da ProSmart EV a partir das fontes listadas. Não substitui o projeto elétrico com ART, a orientação da administradora nem a análise de um advogado de condomínio. Normas e leis mudam: confira sempre a versão em vigor. Achou algo errado ou desatualizado? Avise a gente.

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