Os dados públicos disponíveis apontam na mesma direção: carros elétricos e híbridos plug-in pegam fogo com menos frequência que os carros a combustão. Quando pegam, porém, o fogo é diferente: a bateria de lítio pode manter a queima por muito tempo e voltar a acender depois de apagada. Por isso o que muda numa garagem com recarga não é o risco de existir incêndio, e sim como o prédio se prepara para desligar a energia, evacuar e deixar o Corpo de Bombeiros trabalhar.
Este artigo reúne o que agências públicas e corpos de bombeiros publicaram, explica dois casos famosos que costumam ser contados pela metade e mostra o que as normas pedem do projeto.
O que os números mostram
A agência dinamarquesa de gestão de emergências acompanha os incêndios em carros elétricos e híbridos desde 2018. Em 2022, a Dinamarca registrou 20 incêndios envolvendo esses carros, o que equivale a 1,1 incêndio por 10.000 elétricos e híbridos registrados. Em todos os anos analisados, a taxa foi menor que a dos demais carros.[1]
A mesma publicação compara os países vizinhos: Suécia e Noruega ficaram em 0,4 e 0,5 incêndio por 10.000 elétricos e híbridos. A comparação tem limites, porque cada país conta de um jeito (a agência sueca, por exemplo, não inclui incêndios criminosos), mas o padrão se repete nos três: elétricos e híbridos queimam menos que os demais carros.[1]
Quantos pegam fogo durante a recarga
A pergunta do síndico é outra: e na recarga? Dos 76 incêndios com elétricos e híbridos registrados na Dinamarca entre janeiro de 2018 e junho de 2023, em 4 o carro estava carregando. No mesmo levantamento, 18 foram incêndios criminosos e 8 começaram em outro lugar e se espalharam até o carro. Na Suécia, de 81 carros elétricos e híbridos que queimaram entre 2018 e 2022, 18 estavam em recarga.[1]
Os casos criminosos e os de fogo que começa em outro ponto reforçam uma ideia simples para a garagem: o risco de incêndio existe com qualquer carro estacionado, e a proteção do prédio precisa considerar a garagem inteira, não só as vagas com estação.
Ou seja: a recarga responde por uma parte minoritária dos casos, mas não desprezível. E é a parte em que a instalação do prédio tem influência direta. Circuito certo, proteções certas, estação certificada e manutenção reduzem justamente o risco que depende do condomínio. O que isso significa na prática está em por que não carregar em tomada comum.
Por que o fogo é diferente
Uma bateria de tração tem centenas ou milhares de células. Quando uma célula danificada esquenta sem controle, a reação aquece as vizinhas, que também entram em reação: é a fuga térmica. O órgão de segurança de transportes dos Estados Unidos (NTSB) aponta a fuga térmica e as múltiplas reignições depois do primeiro combate como riscos centrais desses incêndios, e explica que a energia que fica retida numa bateria danificada mantém o risco de choque e de o fogo voltar.[2]
O Corpo de Bombeiros de Santa Catarina resume o que isso significa no combate: o incêndio é mais difícil de apagar, exige quantidade de água bem maior, gera mais calor e libera diferentes gases tóxicos, e pode voltar a pegar fogo mesmo depois de apagado.[3] Em garagem fechada, calor e fumaça se acumulam, e a prioridade é tirar as pessoas e dar condição para a equipe trabalhar.
| Ponto | Carro a combustão | Carro elétrico |
|---|---|---|
| Frequência de incêndio | Maior, nos dados disponíveis | Menor, nos dados disponíveis |
| Fonte principal de energia no fogo | Combustível e materiais do carro | Bateria, além dos materiais do carro |
| Duração e reignição | Apagado, em geral não volta | Pode voltar a acender depois de apagado |
| Água no combate | Quantidade usual | Quantidade bem maior |
- Carro a combustão:
- Maior, nos dados disponíveis
- Carro elétrico:
- Menor, nos dados disponíveis
- Carro a combustão:
- Combustível e materiais do carro
- Carro elétrico:
- Bateria, além dos materiais do carro
- Carro a combustão:
- Apagado, em geral não volta
- Carro elétrico:
- Pode voltar a acender depois de apagado
- Carro a combustão:
- Quantidade usual
- Carro elétrico:
- Quantidade bem maior
Dois casos famosos e o que eles ensinam
Luton, Reino Unido, 2023
O incêndio que destruiu um edifício-garagem do aeroporto de Luton, em outubro de 2023, foi muito associado a carros elétricos nas redes sociais. O relatório do serviço de bombeiros local concluiu que o veículo de origem era a diesel, não elétrico nem híbrido plug-in; o fogo, acidental, começou no compartimento do motor. O mesmo relatório observa que um sistema de chuveiros automáticos adequado poderia ter alterado e retardado a propagação.[4]
Incheon, Coreia do Sul, 2024
Em agosto de 2024, um carro elétrico pegou fogo na garagem subterrânea de um condomínio em Incheon, e 140 carros foram danificados, 40 totalmente queimados. Dois detalhes costumam ficar de fora: o carro não estava conectado ao carregador, e a investigação preliminar dos bombeiros apontou que a válvula do sistema de chuveiros automáticos tinha sido desligada pela administração logo depois do alarme.[5]
As duas lições se parecem. Garagem com muitos carros, de qualquer tipo, depende dos sistemas de incêndio do prédio funcionando e mantidos. E um sistema que existe mas é desligado na hora errada não protege ninguém.
O que muda no projeto da garagem
É por isso que as normas estaduais publicadas em 2026 tratam a garagem com recarga como um caso próprio. Em Santa Catarina, por exemplo, há um ponto de desligamento manual de todas as estações em cada pavimento, perto do acesso; afastamento mínimo de 5 m entre a vaga com recarga e a saída quando só existe uma rota de fuga; detecção automática nos locais cobertos, salvo as dispensas previstas; e elementos estruturais próximos capazes de resistir ao calor de um incêndio de bateria.[6] Em Minas Gerais, o desligamento manual aparece em três níveis: junto à estação, no acesso do pavimento e no quadro principal.[7]
O desligamento não apaga o fogo da bateria, que tem energia própria. Ele serve para que os carregadores e os cabos parem de receber energia da rede, para que ninguém combata perto de circuito energizado e para que outras vagas não continuem carregando no meio da ocorrência. O resumo por estado está em NBR 17019 e Corpo de Bombeiros.
Mitos e o que os dados dizem
| O que se ouve | O que as fontes mostram |
|---|---|
| “Carro elétrico pega fogo à toa.” | Nos dados públicos, pega fogo com menos frequência que os demais[1] |
| “O incêndio de Luton foi de um elétrico.” | O veículo de origem era a diesel[4] |
| “A maioria pega fogo carregando.” | Minoria: 4 de 76 casos na Dinamarca, 18 de 81 na Suécia[1] |
| “Desligar o carregador apaga o fogo.” | Não: a bateria guarda energia própria e pode reacender[2] |
| “Água não adianta.” | Adianta, mas em quantidade bem maior; quem combate é o bombeiro[3] |
- O que as fontes mostram:
- Nos dados públicos, pega fogo com menos frequência que os demais[1]
- O que as fontes mostram:
- O veículo de origem era a diesel[4]
- O que as fontes mostram:
- Minoria: 4 de 76 casos na Dinamarca, 18 de 81 na Suécia[1]
- O que as fontes mostram:
- Não: a bateria guarda energia própria e pode reacender[2]
- O que as fontes mostram:
- Adianta, mas em quantidade bem maior; quem combate é o bombeiro[3]
O que o condomínio e o morador podem fazer
A orientação do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina para o caso de incêndio é direta: evacuar a edificação imediatamente e ligar 193, com todos os sistemas preventivos e as rotas de fuga em perfeito funcionamento.[3]
Se notar fumaça ou cheiro de queimado numa vaga
- Não toque no carro, no cabo nem na estação.
- Se o caminho estiver livre e seguro, acione o botão de desligamento de emergência dos carregadores.
- Acione o alarme de incêndio do prédio e avise a portaria.
- Saia da garagem pela rota de fuga e ligue 193, dizendo que há um carro elétrico envolvido.
- Não volte para buscar nada, nem para tirar outros carros.
Vale fazer esse roteiro virar procedimento escrito do condomínio, com treinamento de porteiros, zeladores e da brigada, se houver. Saber onde fica o botão de desligamento faz diferença nos primeiros minutos.
Como a ProSmart EV faz
Na ProSmart EV, a instalação é feita por integrador credenciado, com ART, em estações fixas com proteções em cada circuito, e o projeto prevê o seccionamento de emergência dos carregadores, com botão interligado ao sistema de incêndio que o prédio já tem. Detecção, alarme e chuveiros automáticos, quando a norma do estado exige, fazem parte do projeto de incêndio do edifício, feito por profissional dessa área. Mais detalhes em segurança e normas.
Resumo
- Nos dados de agências públicas, elétricos e híbridos pegam fogo com menos frequência que os demais carros.
- Quando pegam, o fogo da bateria é mais longo, exige mais água e pode reacender.
- A recarga é uma parte minoritária dos casos, e é a parte que a instalação do prédio controla.
- O projeto prevê desligamento de emergência; os sistemas de incêndio do prédio precisam estar funcionando.
- Leia também as proteções da recarga e manutenção da instalação.