Pular para o conteúdo
Tecnologia

Potência de recarga: 3,7, 7,4, 11 ou 22 kW, qual faz diferença de verdade

De onde vêm os números das estações, por que o carregador de bordo do carro manda, a armadilha da rede 127/220 V e por que a recarga desacelera perto de 100%.

17 de outubro de 20267 min de leituraNível técnicoPara morador, síndico, projetista, integrador
Neste artigo
O que você vai entender
  • Carregador de 22 kW carrega mais rápido que o de 7 kW?
  • Qual a potência ideal de carregador para condomínio?
  • Por que o carro carrega com menos potência do que a estação promete?
  • Quanto tempo leva para carregar um carro elétrico em 7 kW?
  • Por que a recarga fica mais lenta perto de 100%?

A potência que entra no carro é sempre a menor entre três limites: o que a estação entrega, o que o circuito da vaga aguenta e o que o carregador de bordo do carro aceita. Por isso uma estação de 22 kW, em muitos carros, carrega exatamente como uma de 7,4 kW. No condomínio, onde o carro passa a noite parado, 7,4 kW monofásico atende quase todo mundo; mais potência só faz sentido quando o carro aceita e a instalação permite.

De onde vêm os números 3,7, 7,4, 11 e 22

Esses números nasceram na Europa, onde a tensão entre fase e neutro é de 230 V. Eles saem de uma conta simples: potência é tensão vezes corrente, e no trifásico são três fases somadas.

Potência de uma estação AC
Monofásico: P = V × I
3,7 kW ≈ 230 V × 16 A 7,4 kW ≈ 230 V × 32 A
Trifásico: P = 3 × V(fase-neutro) × I
11 kW ≈ 3 × 230 V × 16 A 22 kW ≈ 3 × 230 V × 32 A
Contas arredondadas. Os valores comerciais das estações seguem a tensão europeia.

No Brasil, a tensão mais comum para a recarga é 220 V. Com ela, os números ficam um pouco menores. A ficha de uma estação trifásica de 11 kW vendida no país, por exemplo, informa 10,5 kW quando ligada em 380 V.[1]

3,7 kW
Ligação:
Monofásica
Corrente:
16 A
Em 220 V ou 220/380 V:
≈ 3,5 kW
7,4 kW
Ligação:
Monofásica
Corrente:
32 A
Em 220 V ou 220/380 V:
≈ 7,0 kW
11 kW
Ligação:
Trifásica
Corrente:
3 × 16 A
Em 220 V ou 220/380 V:
≈ 10,6 kW
22 kW
Ligação:
Trifásica
Corrente:
3 × 32 A
Em 220 V ou 220/380 V:
≈ 21,1 kW
Contas com 220 V entre fase e neutro (ou entre duas fases, no caso monofásico). Valores aproximados.

O carregador de bordo manda

Em corrente alternada, quem converte a energia para a bateria é o carregador de bordo, um equipamento dentro do carro. A estação apenas informa ao carro quanta corrente ele pode puxar. Se o carregador de bordo aceita 6,6 kW, é isso que ele vai usar, mesmo numa estação de 22 kW.

BYD Dolphin Mini
Bateria:
versões 2026
Limite em AC:
6,6 kW
BYD Dolphin GS
Bateria:
44,9 kWh
Limite em AC:
6,6 kW
GWM ORA 03 GT (versão europeia)
Bateria:
63 kWh nominais
Limite em AC:
11 kW trifásico
BMW iX1
Bateria:
66,5 kWh
Limite em AC:
11 kW
Fontes: ficha técnica da BYD Brasil, Canal VE e EV Database. Versões e anos mudam: confira o manual do seu carro.

Os dois primeiros aceitam 6,6 kW.[2][3] Na versão europeia do ORA 03 GT, o carregador de bordo é trifásico de 11 kW: em monofásico, o mesmo carro carrega a 3,7 kW com 16 A ou a 7,4 kW com 32 A.[4] O BMW iX1, no lançamento brasileiro, foi informado com recarga de zero a 100% em 6h30 numa estação configurada em 11 kW.[5]

A regra prática: muitos compactos aceitam por volta de 6,6 a 7 kW em monofásico, e alguns modelos maiores aceitam 11 kW, mas só em trifásico. Para ver o tempo do seu carro, use a calculadora de tempo de recarga.

Monofásico, trifásico e a armadilha da rede 127/220 V

Na recarga trifásica, o carro recebe cada fase em relação ao neutro e foi projetado esperando por volta de 220 V a 230 V em cada uma. Em prédio com rede 220/380 V, isso funciona. Em prédio com rede 127/220 V, comum em várias cidades brasileiras, a tensão entre fase e neutro é de 127 V, e a conta muda.

A ficha da estação trifásica citada acima é explícita: em trifásico de rede 127/220 V ela não funciona, e o fabricante pede transformação para 220/380 V; ligada entre duas fases de 220 V, ela trabalha como monofásica, a 3,5 kW.[1] Antes de comprar estação trifásica, portanto, é preciso saber qual é a rede do prédio. O assunto completo está em tensões e fases: 127, 220 e 380 V.

Quem decide é o projeto
A ligação de cada vaga (monofásica entre fase e neutro, entre duas fases ou trifásica) sai do projeto elétrico feito pelo integrador, com ART. Estação comprada antes do projeto pode não funcionar na rede do prédio.

Tempo teórico e tempo real

A conta de bolso é dividir a energia que falta pela potência. Ela dá uma boa ideia, mas o tempo real é um pouco maior por dois motivos: as perdas de conversão e a desaceleração no fim da recarga. Em teste do ADAC, uma estação de 11 kW perdeu de 5,1% a 7% da energia no caminho até a bateria.[6]

Exemplo: de 20% a 80% numa bateria de 60 kWh
Energia que falta = 60 kWh × (80% − 20%) = 36 kWh
Carro de 6,6 kW: 36 ÷ 6,6 ≈ 5,5 h, mais ~6% de perdas ≈ 5,8 h
Carro de 11 kW em 220/380 V: 36 ÷ 10,6 ≈ 3,4 h, mais perdas ≈ 3,6 h
Bateria e percentuais são valores de exemplo. As perdas usam a faixa medida pelo ADAC numa estação de 11 kW.

O caso do iX1 ilustra bem a diferença. A conta teórica para 66,5 kWh em 11 kW daria cerca de 6 horas; o tempo informado de zero a 100% foi de 6h30.[5] A meia hora a mais é a soma das perdas com o fim mais lento.

Por que a recarga desacelera perto de 100%

A recarga de uma bateria de lítio tem duas fases. Na primeira, o sistema de gerenciamento da bateria aceita toda a corrente disponível. Quando as células se aproximam da tensão máxima, entra a fase de tensão constante: a tensão fica parada no limite e a corrente vai caindo, para não sobrecarregar nenhuma célula. Essa segunda fase costuma começar, em média, perto de 80%, mas o ponto exato depende do carro e da bateria.[7]

Na recarga rápida em corrente contínua, essa queda é muito visível. Na recarga de garagem, de menor potência, ela pesa bem menos: a corrente já é baixa para a bateria, e a fase final é mais curta.[7] Para o morador, isso significa que a recarga noturna praticamente não sofre com o efeito.

Mais potência na vaga vale a pena?

Em vaga de condomínio, quase nunca. Uma noite de dez horas a 7 kW dá 70 kWh, mais do que a bateria inteira de qualquer carro da tabela acima. Subir para 22 kW exige circuito trifásico de 32 A por fase, cabos e proteções maiores e mais capacidade da entrada do prédio, para um ganho que muitos carros nem conseguem usar.

Além disso, com o gerenciador de demanda, a energia do prédio é repartida entre as vagas: quem cabe carrega, os outros esperam a vez e, quando sobra pouca energia para o último carro, ele entra modulado, com potência menor, em vez de ficar parado. Estação mais forte não muda essa conta, porque o limite passa a ser a energia do prédio.

Exemplo · vaga rotativa de um prédio comercial

Num centro empresarial, o carro fica três ou quatro horas na vaga. Se a frota de visitantes tem muitos carros com carregador de bordo de 11 kW e o prédio tem rede 220/380 V com folga, uma estação trifásica pode fazer sentido. Num prédio residencial, a mesma estação ficaria quase sempre limitada pelo carro ou pela energia disponível.

Como escolher a potência da vaga

Faça
Conferir no manual do carro a potência máxima em AC e se ela é monofásica ou trifásica
Saber a rede do prédio (127/220 V ou 220/380 V) antes de escolher a estação
Dimensionar o circuito pela corrente da estação, com o integrador
Pensar no uso real: horas que o carro fica parado e quilômetros por dia
Evite
Comprar 22 kW achando que o carro vai carregar três vezes mais rápido
Estação trifásica em rede 127/220 V sem projeto
Calcular o tempo de recarga sem as perdas e sem o limite do carro
Escolher potência sem considerar o gerenciador e a energia do prédio

Na ProSmart EV

Na ProSmart EV, a estação indicada para vaga de condomínio é a de 7,4 kW, com OCPP 1.6J e homologada na plataforma. O ProDemand organiza a fila de energia do prédio e modula a potência do último carro quando o limite aperta. Os modelos testados estão em estações compatíveis.

Próximos passos

Fontes e referências

  1. [1]EVE 0110C — Estação de recarga tipo 2 de 11 kW, datasheet rev. 1.6. Intelbras, 2023.Exemplo de ficha de estação trifásica: 11 kW nominais (10,5 kW em 380 V); não funciona em trifásico de rede 127/220 V; 3,5 kW em 220 V entre duas fases.
  2. [2]Ficha técnica BYD Dolphin Mini 2026. BYD Brasil, 2026.Potência de carregamento AC de 6,6 kW.
  3. [3]BYD Dolphin GS 2026 — ficha técnica. Canal VE, 2026.Bateria de 44,9 kWh; recarga de 6,6 kW em AC e 60 kW em DC.
  4. [4]GWM ORA 03 GT — especificações. EV Database.Versão europeia: carregador de bordo trifásico de 11 kW (3 × 16 A); em monofásico, 3,7 kW a 16 A e 7,4 kW a 32 A.
  5. [5]Com beleza e conforto, BMW iX1 chega ao Brasil por R$ 421,9 mil. Canal VE, 2023.Bateria de 66,5 kWh; de zero a 100% em 6h30 com estação configurada em 11 kW.
  6. [6]ADAC tested five EVs for charging losses. One wasted a quarter of the energy. The Next Web (teste do ADAC), 2026.Perdas de 5,1% a 7% numa estação de 11 kW e de 12,7% a 24,2% na tomada comum.
  7. [7]The CV Phase: Why does it matter for charging point operators?. Ampcontrol, 2021.A fase de tensão constante começa, em média, perto de 80%; em recarga de menor potência ela pesa menos.
Sobre este conteúdo
Texto informativo, escrito pela equipe da ProSmart EV a partir das fontes listadas. Não substitui o projeto elétrico com ART, a orientação da administradora nem a análise de um advogado de condomínio. Normas e leis mudam: confira sempre a versão em vigor. Achou algo errado ou desatualizado? Avise a gente.

Vamos conversar sobre o seu prédio?

Conte quantas vagas e quantos carros elétricos o condomínio tem hoje. A gente responde com o caminho mais simples, sem compromisso.