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Energia

Tensões e fases no Brasil (127, 220 e 380 V): como ligar a estação de recarga e equilibrar as fases

Redes 127/220 V e 220/380 V, monofásico, bifásico e trifásico, por que a estação de 7,4 kW vai entre duas fases, o que acontece com as estações trifásicas e como o desequilíbrio limita o prédio.

17 de outubro de 20268 min de leituraNível técnicoPara projetista, integrador, síndico, construtora
Neste artigo
O que você vai entender
  • O carregador de carro elétrico é 127 V, 220 V ou 380 V?
  • Como ligar uma estação de 7,4 kW numa rede 127/220 V?
  • Carregador trifásico de 22 kW funciona em rede 220 V?
  • O que é desequilíbrio de fases e por que importa na recarga?
  • Como distribuir as estações entre as fases?

O Brasil tem dois sistemas principais de baixa tensão: 127/220 V e 220/380 V. Em qualquer um deles, a estação de recarga mais comum em condomínio (7,4 kW) trabalha em 220 V e puxa cerca de 34 A. O que muda é onde ela é ligada: entre duas fases na rede 127/220 V, entre fase e neutro na rede 220/380 V. E, com muitas estações, a forma de distribuí-las entre as fases decide quantas cabem no mesmo disjuntor.

As redes do Brasil

As tensões de distribuição secundária foram padronizadas por decreto em 1988: 380/220 V e 220/127 V nas redes trifásicas, e 440/220 V e 254/127 V nas redes monofásicas (mais comuns no meio rural).[1] O decreto foi revogado em 2021, mas as redes continuam nesses valores. Cada distribuidora usa um ou outro sistema, às vezes os dois na mesma área, e define em norma técnica se cada ligação será monofásica, bifásica ou trifásica.[2]

127/220 V
Fase-neutro:
127 V
Fase-fase:
220 V
Estação de 7,4 kW liga em:
Duas fases (220 V)
220/380 V
Fase-neutro:
220 V
Fase-fase:
380 V
Estação de 7,4 kW liga em:
Fase e neutro (220 V)

Na dúvida sobre a rede do prédio, a resposta está na norma da distribuidora, no projeto elétrico ou numa medição simples feita por um eletricista no quadro.

Por que 127 vira 220, e 220 vira 380

Numa rede trifásica, as três fases são tensões alternadas defasadas de 120° uma da outra. A tensão medida entre duas fases não é a soma das duas, e sim a diferença entre dois vetores a 120°, que dá √3 vezes a tensão de cada fase.

Tensão entre fases
V(fase-fase) = √3 × V(fase-neutro)
127 V × 1,732 ≈ 220 V
220 V × 1,732 ≈ 380 V

É o mesmo √3 que aparece na potência trifásica (P = √3 × V × I) e, como se verá adiante, na soma das correntes de estações que dividem a mesma fase.

Monofásico, bifásico e trifásico na entrada

O padrão de entrada de cada unidade consumidora tem um número de fases: monofásico (uma fase e neutro), bifásico (duas fases e neutro) ou trifásico (três fases e neutro). Isso aparece até na conta de luz: o custo de disponibilidade do Grupo B equivale a 30 kWh no monofásico ou bifásico a dois condutores, 50 kWh no bifásico a três condutores e 100 kWh no trifásico.[2]

A unidade do condomínio (área comum) quase sempre é trifásica, por causa de elevadores e bombas. Apartamentos podem ser monofásicos, bifásicos ou trifásicos. Para a recarga, isso significa: num apartamento de rede 127/220 V com entrada monofásica, não existe 220 V; numa entrada bifásica ou trifásica, existe.

A estação de 7,4 kW

A estação de 7,4 kW é monofásica do ponto de vista do carro: um circuito de 220 V, dois condutores carregados e o condutor de proteção. A corrente:

Corrente da estação de 7,4 kW
I = 7.400 W ÷ 220 V ≈ 33,6 A ≈ 34 A
Com o limite usual de 32 A: 32 A × 220 V ≈ 7,0 kW
  • Rede 127/220 V: os dois condutores são duas fases (por exemplo, A e B). Não há neutro no circuito. A corrente de 34 A passa nas duas fases.
  • Rede 220/380 V: os dois condutores são uma fase e o neutro. A corrente de 34 A passa numa fase só e volta pelo neutro.

O cabo, o disjuntor e o DR desse circuito estão em dimensionamento do circuito da estação.

Estações trifásicas: 11 e 22 kW

Estações de 11 kW e 22 kW são trifásicas: usam as três fases e o neutro, e o carregador de bordo do carro recebe energia de fase para neutro em cada uma. Elas foram pensadas para a rede europeia de 230/400 V. No Brasil, a potência depende da rede:

Trifásica 32 A (“22 kW”)
Rede 220/380 V:
3 × 220 V × 32 A ≈ 21,1 kW
Rede 127/220 V:
3 × 127 V × 32 A ≈ 12,2 kW
Trifásica 16 A (“11 kW”)
Rede 220/380 V:
3 × 220 V × 16 A ≈ 10,6 kW
Rede 127/220 V:
3 × 127 V × 16 A ≈ 6,1 kW
Entre duas fases 32 A (“7,4 kW”)
Rede 220/380 V:
— (liga fase-neutro: ≈ 7,0 kW)
Rede 127/220 V:
220 V × 32 A ≈ 7,0 kW
Contas de potência com o fator de potência próximo de 1. A potência real também depende do limite do carregador de bordo do carro.

Repare na última comparação: numa rede 127/220 V, uma estação “de 11 kW” entrega menos que uma estação comum ligada entre duas fases. Além disso, vale conferir no manual do carro e da estação se a ligação trifásica com 127 V por fase é suportada. É um dos motivos de a estação entre duas fases ser a escolha padrão em condomínios com rede 127/220 V. O artigo potência de recarga: 7, 11 ou 22 kW trata do lado do carro.

Desequilíbrio: o limite é a fase mais carregada

O disjuntor geral protege cada fase. Se uma fase passar do limite, ele desarma, mesmo que as outras duas estejam folgadas. Por isso o que conta não é a corrente média, e sim a da fase mais carregada.

Na rede 127/220 V, duas estações que dividem a mesma fase não somam as correntes de forma simples. Uma ligada entre A e B e outra entre C e A puxam correntes que chegam à fase A defasadas de 60°, e a soma vetorial dá √3 vezes a corrente de uma estação, não o dobro.

Corrente na fase A, com estações entre fases
I(A) = Ic × √(nAB² + nCA² + nAB × nCA)
Ic ≈ 34,3 A por estação; nAB e nCA = estações ligadas em AB e em CA
Uma em AB e uma em CA: 34,3 × √3 ≈ 59,4 A
A mesma fórmula vale para a fase B (estações em AB e BC) e para a fase C (BC e CA). É a conta usada nas calculadoras do site.
1 (AB)
Fase A:
34,3 A
Fase B:
34,3 A
Fase C:
0
2 (AB, BC)
Fase A:
34,3 A
Fase B:
59,4 A
Fase C:
34,3 A
3 (AB, BC, CA)
Fase A:
59,4 A
Fase B:
59,4 A
Fase C:
59,4 A
6 revezando (2 em cada par)
Fase A:
118,9 A
Fase B:
118,9 A
Fase C:
118,9 A
6 todas em AB
Fase A:
205,9 A
Fase B:
205,9 A
Fase C:
0
12 revezando (4 em cada par)
Fase A:
237,8 A
Fase B:
237,8 A
Fase C:
237,8 A
Rede 127/220 V, 34,3 A por estação, todas carregando no máximo.

As mesmas seis estações pesam 118,9 A por fase quando revezam os pares AB, BC e CA, e 205,9 A nas fases A e B quando estão todas no mesmo par: 73% a mais na fase pior, com a fase C parada. Com uma folga de 150 A por fase para os carros, o primeiro arranjo cabe e o segundo derruba o disjuntor.

Na rede 220/380 V a ideia é a mesma, com estações ligadas de fase para neutro: revezando A, B e C, as correntes se dividem entre as fases e o neutro fica quase sem corrente; tudo numa fase só sobrecarrega aquela fase e o neutro.

Equilíbrio na obra e equilíbrio no dia a dia

O primeiro equilíbrio é feito na obra: o projeto distribui as estações em rodízio pelos pares de fase (ou pelas fases, na rede 220/380 V). Mas isso não resolve tudo:

  • O uso é aleatório: numa noite, podem estar conectados só carros de estações ligadas em AB.
  • O prédio já é desequilibrado: apartamentos e circuitos monofásicos carregam as fases de forma diferente, e isso muda ao longo do dia.
  • A estação puxa mais que o resto: 34 A numa fase é muito perto do consumo de vários apartamentos juntos.

Por isso o gerenciador de demanda precisa medir e limitar por fase: ele sabe que a fase B está apertada e segura justamente as estações ligadas nela, deixando as outras carregarem.

Exemplo · disjuntor de 300 A, rede 127/220 V, prédio já usando 180 A na fase B às 21h

Com 30 A de margem, sobram 90 A na fase B. Se houver três carros em estações ligadas em AB e BC, a fase B não comporta os três no máximo; o controle deixa dois carregando e o terceiro entra modulado ou espera. Estações ligadas em CA, que não passam pela fase B, seguem livres até o limite das fases A e C. Valores de exemplo.

E a tomada de 127 V?

Carregar o carro numa tomada comum de 127 V com o cabo portátil que vem com ele é possível, mas lento e pensado para uso eventual: a 10 A, são cerca de 1,3 kW. Os riscos de usar tomada comum por horas estão em carregar em tomada comum.

Faça
Confirmar a rede do prédio (127/220 ou 220/380 V) antes de escolher a estação
Distribuir as estações em rodízio pelos pares de fase (AB, BC, CA)
Medir cada fase do quadro, não só a corrente média
Usar gerenciador que limita por fase
Registrar no projeto em qual par de fases cada vaga foi ligada
Evite
Ligar todas as estações nas mesmas duas fases
Comprar estação trifásica para rede 127/220 V sem fazer a conta
Achar que “cabe na média das fases”
Puxar o neutro para a estação em rede 127/220 V como se fosse 220/380 V
Cadastro na distribuidora
Algumas distribuidoras pedem o cadastro da estação com tensão, número de fases e potência, como na norma pública usada aqui como exemplo.[3] Confira as regras da sua.

Na ProSmart EV

O ProDemand respeita cada fase de cada quadro: mede a corrente fase a fase e segura só as estações que passam pela fase apertada. As estações precisam falar OCPP 1.6J e estar homologadas na plataforma (veja a compatibilidade).

Resumo

  • Rede 127/220 V: estação de 7,4 kW entre duas fases. Rede 220/380 V: entre fase e neutro.
  • Estação trifásica em rede 127/220 V entrega bem menos que o nome sugere.
  • O limite é a fase mais carregada; duas estações que dividem uma fase somam √3 × 34,3 A.
  • Rodízio de fases na obra e gerenciador por fase no dia a dia.

Fontes e referências

  1. [1]Decreto nº 97.280, de 16 de dezembro de 1988 (tensões nominais padronizadas). Presidência da República, 1988.Padronizou 380/220 e 220/127 V nas redes trifásicas e 440/220 e 254/127 V nas monofásicas. Revogado em 2021; as redes seguem nesses valores.
  2. [2]Resolução Normativa ANEEL nº 1.000, de 7 de dezembro de 2021. ANEEL / Diário Oficial da União, 2021.Art. 24 (a distribuidora define se a conexão é mono, bi ou trifásica) e art. 291 (custo de disponibilidade por tipo de ligação).
  3. [3]I-321.0043 — Estações de recarga de veículos elétricos (instrução normativa de distribuidora). Celesc Distribuição, 2025.Exemplo de distribuidora em rede 220/380 V e cadastro da estação com tensão e número de fases.
Sobre este conteúdo
Texto informativo, escrito pela equipe da ProSmart EV a partir das fontes listadas. Não substitui o projeto elétrico com ART, a orientação da administradora nem a análise de um advogado de condomínio. Normas e leis mudam: confira sempre a versão em vigor. Achou algo errado ou desatualizado? Avise a gente.

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