A carga disponível é quanto o prédio ainda pode puxar sem passar do limite da instalação, hora a hora. Ela não sai da soma dos equipamentos nem da conta de luz sozinha: sai de uma medição do quadro ao longo de alguns dias. E quase sempre a resposta tem duas partes: pouca sobra no fim da tarde e muita sobra de madrugada, que é justamente quando os carros estão parados na garagem.
Números que não são a mesma coisa
A regulação do setor elétrico define com precisão os termos que costumam se misturar nessa conversa:[1]
- Carga instalada: a soma das potências nominais de todos os equipamentos prontos para funcionar, em kW. É o “se tudo ligasse ao mesmo tempo”.
- Demanda: a média da potência pedida à rede num intervalo de tempo. A demanda máxima é o maior desses valores.
- Fator de demanda: a demanda máxima dividida pela carga instalada. Em prédios ele é bem menor que 1, porque nem tudo liga junto.
- Fator de carga: a demanda média dividida pela demanda máxima. Mostra quanto o consumo é “pontudo”.
O número que mais importa para a recarga, porém, é outro: a capacidade, o limite que não pode ser passado. A carga disponível é a capacidade menos a demanda, a cada momento.
Qual é o limite
No Grupo B (baixa tensão), o limite é físico: o disjuntor geral, os cabos e o padrão de entrada. Para transformar a corrente do disjuntor em potência, em rede trifásica:
Em prédio com muitas unidades, pode haver mais de um limite empilhado: o disjuntor geral da entrada (que passa a energia de todos os apartamentos), o disjuntor da unidade do condomínio (área comum) e o do quadro onde as estações forem ligadas. A recarga precisa respeitar todos ao mesmo tempo, e cada um é verificado por fase.
No Grupo A (média tensão), o limite é a demanda contratada, medida em médias de 15 minutos.[1] A lógica de levantamento é a mesma, só muda o número de referência. Veja Grupo A e Grupo B.
O que a conta de luz conta (e o que não conta)
A conta do Grupo B traz a energia do mês, em kWh. Dividindo pelas horas do mês, sai a potência média, que é uma pista, mas não o pico.
A conta do Grupo A ajuda mais: traz a demanda medida, a maior média de 15 minutos do mês.[1] Ainda assim é um número por mês (ou por posto tarifário), sem dizer a que horas o pico aconteceu nem em qual fase. Para dimensionar a recarga, falta saber como o consumo se comporta ao longo do dia.
Medir: o analisador de energia
O jeito confiável é instalar um analisador de energia (ou um medidor com registro) no quadro que tem o limite, com garras de corrente em cada fase. Ele grava corrente, tensão e potência em intervalos regulares. Um formato prático é registrar de 15 em 15 minutos, o mesmo intervalo que a regulação usa para a demanda medida,[1] durante pelo menos 7 dias corridos, para pegar dias úteis e fim de semana.
Na medição, o projetista procura:
- A maior corrente de cada fase e a hora em que aconteceu.
- A curva de um dia típico: como o consumo sobe e desce hora a hora.
- O desequilíbrio: quanto uma fase carrega mais que as outras. O limite real é o da fase mais carregada.
- A tensão: se ela cai muito nos horários de pico, isso também limita a recarga.
A distribuidora também tem obrigação de informar, de graça e em até 30 dias quando solicitada, dados do sistema elétrico no ponto de conexão, como a corrente de curto-circuito presumida,[1] que o projeto vai usar para escolher as proteções.
Lendo a curva de carga
Em prédios residenciais, um formato comum é o consumo baixo de madrugada, subindo de manhã e com o maior pico no começo da noite, quando todo mundo chega, usa elevador, chuveiro e cozinha. Cada prédio tem o seu desenho, por isso se mede. Um exemplo:
| Hora | Prédio (fase mais carregada) | Sobra para os carros |
|---|---|---|
| 06h | 120 A | 150 A |
| 12h | 150 A | 120 A |
| 18h | 230 A | 40 A |
| 20h | 240 A | 30 A |
| 23h | 140 A | 130 A |
| 03h | 60 A | 210 A |
- Prédio (fase mais carregada):
- 120 A
- Sobra para os carros:
- 150 A
- Prédio (fase mais carregada):
- 150 A
- Sobra para os carros:
- 120 A
- Prédio (fase mais carregada):
- 230 A
- Sobra para os carros:
- 40 A
- Prédio (fase mais carregada):
- 240 A
- Sobra para os carros:
- 30 A
- Prédio (fase mais carregada):
- 140 A
- Sobra para os carros:
- 130 A
- Prédio (fase mais carregada):
- 60 A
- Sobra para os carros:
- 210 A
Por que a noite importa
Se a instalação for calculada para todas as estações ligadas ao mesmo tempo na potência máxima (o que a NBR 17019 pede quando não há controle de demanda),[2] a única sobra que conta é a do pior horário: no exemplo, 30 A, nem uma estação de 7,4 kW inteira. Com um gerenciador de demanda que mede o prédio, a sobra de cada hora pode ser usada, e a madrugada passa a ser o grande reservatório.
As distribuidoras seguem a mesma ideia no pedido de ligação: com gerenciador, a demanda gerenciada entra no cálculo no lugar da soma das estações.[3] A conta abaixo usa as mesmas premissas da calculadora do site.
De madrugada, o exemplo considera que sobram cerca de 250 A. Com estações de 7,4 kW (cerca de 34 A cada) ligadas revezando as fases, cabem 12 estações carregando juntas sem nenhuma fase passar de 250 A.
Em 8 horas de noite, com 90% de eficiência: 12 × 7,4 kW × 8 h × 0,9 ≈ 640 kWh. Cada carro que roda 1.000 km por mês, a 0,15 kWh/km, precisa de uns 5 kWh por dia.
A conta “cheia” daria mais de 120 carros. Contando só 40% de aproveitamento da noite (fila que embola num dia e sobra no outro), ficam cerca de 51 carros atendidos com folga, só de madrugada. Valores de exemplo; faça a sua conta na calculadora.
Margens e cuidados
- Margem de segurança: não se trabalha encostado no disjuntor. O projetista define uma reserva (o exemplo acima usou 10%), maior quando a medição foi curta ou fora da época de pico.
- Época do ano: uma medição de inverno pode esconder o pico do verão com ar-condicionado. Se não der para medir na pior estação, o projeto aplica uma margem maior.
- Crescimento: o prédio muda (nova bomba, academia, reforma). A sobra de hoje não é eterna, e um gerenciador dinâmico se ajusta sozinho a isso.
- Fases: uma sobra de 100 A numa fase e 20 A em outra não é “60 A de média”. A estação ligada entre duas fases precisa de folga nas duas.
- Cabos e quadros: o disjuntor não é o único limite. O alimentador até o quadro dos carregadores também tem capacidade própria.
Como a ProSmart EV ajuda
A Análise de Energia da ProSmart EV é um serviço à parte. Antes da obra, a medição de 7 dias registra o quadro geral de 15 em 15 minutos e o resultado entra no projeto elétrico. Depois, com o ProDemand medindo a entrada, o relatório separa o que é carregador do que é o resto do prédio e mostra os dias em que o prédio encostou no limite.
Próximos passos
- Entenda como a sobra vira recarga em gerenciador de demanda.
- Se a sobra não bastar, veja o caminho do aumento de carga.
- Teste o seu prédio na calculadora de quantos carros cabem.