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Energia

Carga disponível do prédio: como saber quanta energia sobra para os carros elétricos

Carga instalada, demanda e capacidade não são a mesma coisa. Como levantar a sobra real do quadro: conta de luz, medição com analisador, curva de carga e por que a madrugada muda tudo.

17 de outubro de 20267 min de leituraNível intermediárioPara síndico, projetista, integrador, construtora
Neste artigo
O que você vai entender
  • Como saber se o prédio aguenta carregador de carro elétrico?
  • Quanto de energia sobra no quadro do condomínio?
  • O que é curva de carga e demanda máxima?
  • Dá para descobrir a sobra pela conta de luz?
  • Por que a recarga à noite cabe mais carros?

A carga disponível é quanto o prédio ainda pode puxar sem passar do limite da instalação, hora a hora. Ela não sai da soma dos equipamentos nem da conta de luz sozinha: sai de uma medição do quadro ao longo de alguns dias. E quase sempre a resposta tem duas partes: pouca sobra no fim da tarde e muita sobra de madrugada, que é justamente quando os carros estão parados na garagem.

Números que não são a mesma coisa

A regulação do setor elétrico define com precisão os termos que costumam se misturar nessa conversa:[1]

  • Carga instalada: a soma das potências nominais de todos os equipamentos prontos para funcionar, em kW. É o “se tudo ligasse ao mesmo tempo”.
  • Demanda: a média da potência pedida à rede num intervalo de tempo. A demanda máxima é o maior desses valores.
  • Fator de demanda: a demanda máxima dividida pela carga instalada. Em prédios ele é bem menor que 1, porque nem tudo liga junto.
  • Fator de carga: a demanda média dividida pela demanda máxima. Mostra quanto o consumo é “pontudo”.

O número que mais importa para a recarga, porém, é outro: a capacidade, o limite que não pode ser passado. A carga disponível é a capacidade menos a demanda, a cada momento.

Qual é o limite

No Grupo B (baixa tensão), o limite é físico: o disjuntor geral, os cabos e o padrão de entrada. Para transformar a corrente do disjuntor em potência, em rede trifásica:

Capacidade de um disjuntor trifásico
P = √3 × V (entre fases) × I
Rede 127/220 V, disjuntor de 300 A: √3 × 220 × 300 ≈ 114 kW
Rede 220/380 V, disjuntor de 300 A: √3 × 380 × 300 ≈ 197 kW
Valores de exemplo, com cargas equilibradas e fator de potência próximo de 1.

Em prédio com muitas unidades, pode haver mais de um limite empilhado: o disjuntor geral da entrada (que passa a energia de todos os apartamentos), o disjuntor da unidade do condomínio (área comum) e o do quadro onde as estações forem ligadas. A recarga precisa respeitar todos ao mesmo tempo, e cada um é verificado por fase.

No Grupo A (média tensão), o limite é a demanda contratada, medida em médias de 15 minutos.[1] A lógica de levantamento é a mesma, só muda o número de referência. Veja Grupo A e Grupo B.

O que a conta de luz conta (e o que não conta)

A conta do Grupo B traz a energia do mês, em kWh. Dividindo pelas horas do mês, sai a potência média, que é uma pista, mas não o pico.

Potência média pela conta (exemplo)
Consumo da área comum: 7.200 kWh no mês
Horas no mês: 30 × 24 = 720 h
Potência média = 7.200 ÷ 720 = 10 kW
O pico real pode ser várias vezes maior: elevadores partindo, bombas, portão, iluminação acendendo junto.

A conta do Grupo A ajuda mais: traz a demanda medida, a maior média de 15 minutos do mês.[1] Ainda assim é um número por mês (ou por posto tarifário), sem dizer a que horas o pico aconteceu nem em qual fase. Para dimensionar a recarga, falta saber como o consumo se comporta ao longo do dia.

Não dimensione pela conta
Estimar a sobra pela média da conta costuma superestimar o que cabe no fim da tarde. A conta serve para um primeiro filtro; a decisão vem da medição.

Medir: o analisador de energia

O jeito confiável é instalar um analisador de energia (ou um medidor com registro) no quadro que tem o limite, com garras de corrente em cada fase. Ele grava corrente, tensão e potência em intervalos regulares. Um formato prático é registrar de 15 em 15 minutos, o mesmo intervalo que a regulação usa para a demanda medida,[1] durante pelo menos 7 dias corridos, para pegar dias úteis e fim de semana.

Na medição, o projetista procura:

  • A maior corrente de cada fase e a hora em que aconteceu.
  • A curva de um dia típico: como o consumo sobe e desce hora a hora.
  • O desequilíbrio: quanto uma fase carrega mais que as outras. O limite real é o da fase mais carregada.
  • A tensão: se ela cai muito nos horários de pico, isso também limita a recarga.

A distribuidora também tem obrigação de informar, de graça e em até 30 dias quando solicitada, dados do sistema elétrico no ponto de conexão, como a corrente de curto-circuito presumida,[1] que o projeto vai usar para escolher as proteções.

Lendo a curva de carga

Em prédios residenciais, um formato comum é o consumo baixo de madrugada, subindo de manhã e com o maior pico no começo da noite, quando todo mundo chega, usa elevador, chuveiro e cozinha. Cada prédio tem o seu desenho, por isso se mede. Um exemplo:

06h
Prédio (fase mais carregada):
120 A
Sobra para os carros:
150 A
12h
Prédio (fase mais carregada):
150 A
Sobra para os carros:
120 A
18h
Prédio (fase mais carregada):
230 A
Sobra para os carros:
40 A
20h
Prédio (fase mais carregada):
240 A
Sobra para os carros:
30 A
23h
Prédio (fase mais carregada):
140 A
Sobra para os carros:
130 A
03h
Prédio (fase mais carregada):
60 A
Sobra para os carros:
210 A
Exemplo ilustrativo: disjuntor geral de 300 A, margem de segurança de 30 A (10%).
30 A
sobra no pior horário (20h), no exemplo
210 A
sobra de madrugada (3h), no mesmo prédio
7×
diferença entre a pior hora e a madrugada

Por que a noite importa

Se a instalação for calculada para todas as estações ligadas ao mesmo tempo na potência máxima (o que a NBR 17019 pede quando não há controle de demanda),[2] a única sobra que conta é a do pior horário: no exemplo, 30 A, nem uma estação de 7,4 kW inteira. Com um gerenciador de demanda que mede o prédio, a sobra de cada hora pode ser usada, e a madrugada passa a ser o grande reservatório.

As distribuidoras seguem a mesma ideia no pedido de ligação: com gerenciador, a demanda gerenciada entra no cálculo no lugar da soma das estações.[3] A conta abaixo usa as mesmas premissas da calculadora do site.

Exemplo · disjuntor de 300 A em rede 127/220 V, carros rodando 1.000 km por mês

De madrugada, o exemplo considera que sobram cerca de 250 A. Com estações de 7,4 kW (cerca de 34 A cada) ligadas revezando as fases, cabem 12 estações carregando juntas sem nenhuma fase passar de 250 A.

Em 8 horas de noite, com 90% de eficiência: 12 × 7,4 kW × 8 h × 0,9 ≈ 640 kWh. Cada carro que roda 1.000 km por mês, a 0,15 kWh/km, precisa de uns 5 kWh por dia.

A conta “cheia” daria mais de 120 carros. Contando só 40% de aproveitamento da noite (fila que embola num dia e sobra no outro), ficam cerca de 51 carros atendidos com folga, só de madrugada. Valores de exemplo; faça a sua conta na calculadora.

Margens e cuidados

  • Margem de segurança: não se trabalha encostado no disjuntor. O projetista define uma reserva (o exemplo acima usou 10%), maior quando a medição foi curta ou fora da época de pico.
  • Época do ano: uma medição de inverno pode esconder o pico do verão com ar-condicionado. Se não der para medir na pior estação, o projeto aplica uma margem maior.
  • Crescimento: o prédio muda (nova bomba, academia, reforma). A sobra de hoje não é eterna, e um gerenciador dinâmico se ajusta sozinho a isso.
  • Fases: uma sobra de 100 A numa fase e 20 A em outra não é “60 A de média”. A estação ligada entre duas fases precisa de folga nas duas.
  • Cabos e quadros: o disjuntor não é o único limite. O alimentador até o quadro dos carregadores também tem capacidade própria.
Faça
Medir pelo menos 7 dias corridos, fase por fase
Registrar em intervalos de 15 minutos ou menos
Anotar todos os limites: entrada, condomínio, quadro, cabos
Usar a medição para decidir entre gerenciador e aumento de carga
Guardar o relatório junto com o projeto e a ART
Evite
Dividir a conta de luz por 720 h e chamar isso de sobra
Somar a placa dos equipamentos e aplicar um fator “de cabeça”
Medir só um dia, ou só em horário comercial
Olhar a média das fases em vez da fase mais carregada
Ligar estações “para testar” antes do levantamento

Como a ProSmart EV ajuda

A Análise de Energia da ProSmart EV é um serviço à parte. Antes da obra, a medição de 7 dias registra o quadro geral de 15 em 15 minutos e o resultado entra no projeto elétrico. Depois, com o ProDemand medindo a entrada, o relatório separa o que é carregador do que é o resto do prédio e mostra os dias em que o prédio encostou no limite.

Próximos passos

Fontes e referências

  1. [1]Resolução Normativa ANEEL nº 1.000, de 7 de dezembro de 2021. ANEEL / Diário Oficial da União, 2021.Art. 2º: carga instalada, demanda, demanda medida (15 minutos), fator de demanda e fator de carga; art. 22: dados da rede fornecidos pela distribuidora.
  2. [2]Alimentação de veículos elétricos na NBR 17019. O Setor Elétrico, 2026.Fator de demanda 1 para os pontos de recarga quando não há controle.
  3. [3]I-321.0043 — Estações de recarga de veículos elétricos (instrução normativa de distribuidora). Celesc Distribuição, 2025.Exemplo de regra de distribuidora: com gerenciador, a demanda gerenciada entra no cálculo da demanda provável.
Sobre este conteúdo
Texto informativo, escrito pela equipe da ProSmart EV a partir das fontes listadas. Não substitui o projeto elétrico com ART, a orientação da administradora nem a análise de um advogado de condomínio. Normas e leis mudam: confira sempre a versão em vigor. Achou algo errado ou desatualizado? Avise a gente.

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